Um dia a gente aprende

ESTILO DON JUAN

Aquela noite tinha tudo para ser a melhor dos últimos meses. Lua cheia, céu estrelado eu estava super produzida especialmente para que ele sentisse orgulho da mulher que tinha ao lado. Chegamos. A festa já estava rolando. Conversávamos com um grupo de amigos quando:

_ Será que ele está jogando charme de novo? Pensei. Sempre começa com aquele sorrisinho, fazendo perguntinhas idiotas, dando aquele raio-x. Todas as vezes, que saímos é um estresse quando uma mulher bonita aparece.

Não esquento com olhares até porque o que é bonito é para ser admirado, também olho os homens bonitos e meu olhar é uma perfeita e discreta ultrassonografia 6D. Mas aquilo me incomodava muito, até porque eu havia começado a fazer a mesma coisa que ele em represália.

Meu vestido branco, costas nuas , fenda com shortinho e bronzeada de praia atraía olhares, contudo nenhum desses olhares me interessava, meu foco era todo direcionado para quem estava comigo. “Dar mole” estando com outra pessoa não era legal.

Eu costumava chamar essa atitude dele de “performance”. Acho que algumas pessoas trazem isso no seu DNA, só pode. E mais uma vez eu estava com uma dessas pessoas.

O dicionário define flertar como comportar–se de uma forma que mostra atração sexual por alguém, mas que esse comportamento não é para ser levado a sério.

Essa definição pode dar certo para flertes inocentes, mas todas nós sabemos que algumas pessoas têm intenções “mega maiores”, “caiu na rede é peixe”. Como não levar a sério Michaelis?

Muitas pessoas paqueram para explorar o potencial de um relacionamento romântico ou sexual. E quando isso acontece paralelo à uma relação de compromisso, a linha entre a diversão inocente e a infidelidade é intencional e turva.

O engraçado é que eles pensam que não estão sendo vistos ou notados quando cometem tamanho descaramento. Na mentalidade “machista marxista”, o homem tem mais é que olhar a bunda. Caso goste e a bunda estiver desacompanhada, ele ” tem o direto” estando acompanhado ou não de tentar um contato.

Eu já havia passado por isso tantas vezes e com tantas pessoas que preferia fingir que não via. E sabe que dava certo? Eu ficava passada, a noite ou o dia acabava ali para mim, mas não discutíamos. Eu já tinha começado a estudar sobre relacionamentos e havia aprendido que os homens são visuais. Ah! Isso desculpa tudo, não é mesmo?

Só esqueceram de dizer que uma porcentagem deles possui cérebro fraco e por isso é facilmente dominada por uma bunda ou peito e que respeito para a maioria deles é olhar, fingindo que não olhou.
Se você não notou, não é desrespeito.

Mas naquele dia não sei se foi a dança dos hormônios ou o peso do descaso, que há meses vinha engolindo e carregando só sei que decidi fazer diferente.

O professor David Dryden Henningsen da Northern Illinois University, um dos principais pesquisadores sobre a paquera, oferece uma definição abrangente para esse fenômeno. Segundo ele “é um comportamento motivado por objetivos sexuais e de auto afirmação”. São essas motivações e intenções que distinguem uma paquera dos atos de infidelidade.

Uma paquera pode ser uma brincadeira daquele bobão, sem noção  e provocador que dá uma sensação agradável a quem recebe motivada pela diversão. É uma atividade inofensiva e inocente que faz com que nenhuma das partes sinta-se desconfortável.

Quando essa paquera é retribuída ele se sente bem porque aumenta a sua autoestima. Assim, homens e mulheres paqueram mesmo porque se sentem atraentes. As pessoas também fazem isso como uma forma de elogiar ou fazer a outra sentir-se melhor sobre si mesma.

Outras são um instrumento, usam a paquera para conseguir algo, persuadir alguém a fazer algo para você. Como já fiz algumas vezes seguindo o exemplo de uma boa parcela masculina, por exemplo, com o barman para conseguir um drink mais rápido, mas isso não significa que eu quisesse ir para casa com ele e vale ressaltar, nunca o fiz acompanhada. A não ser naquele dia em que fui brutalmente desafiada.

A natureza ambígua de uma paquera torna mais fácil transmitir indiretamente um interesse romântico ou sexual com menor risco de rejeição. Assim, homens e mulheres paqueram para avaliar, testar e explorar se outra pessoa está interessada em começar um relacionamento.

É óbvio que os desejos românticos ou sexuais cruzam a linha em direção à infidelidade. Mas isso não é geralmente a maneira que ela começa.
Muitas vezes, a paquera começa inocentemente e progride, apagando a linha entre diversão inofensiva e comportamento impróprio.

Enfrentemos à realidade, flertar é divertido e nos sentimos super- bem quando somos correspondidas. Todavia sonhar acordado, lembrando, e ansioso por um novo encontro e uma nova “brincadeirinha” com a mesma pessoa é sinal de que algo mais está se desenvolvendo.

O recado aqui é para os comprometidos. Pergunte a si mesmo: “Você muitas vezes é pego pensando sobre a sua “amiga” quando ela não está por perto?” Se você responder “sim”, é hora de reavaliar a sua amizade. E isso vale para homens e mulheres.

Todos nós precisamos de amor, aceitação e da apreciação de outra pessoa. E quando essas necessidades de intimidade não são supridas, nos sentimos solitários, independentemente do nosso status de relacionamento. É por isso que é importante conversar bastante sobre as necessidades de cada um e acordar limites aceitáveis para que um não falte com respeito para com o outro.

Flertar pode levar-nos a compartilhar mais de nossos pensamentos e emoções e o que começa como uma amizade lúdica torna-se então a fundação de uma relação emocionalmente íntima.

Casais têm diferentes graus de aceitação para o flertar do outro. O que um acha engraçado pode ser desconfortável e ameaçador para o outro.

Eu por exemplo não tenho a mínima paciência para aturar um paquerador “politicamente correto”, muito menos do tipo “educadinho”: “_Eu só estava sendo educado amor, você está vendo coisas, sem falar que ela nem chega aos seus pés e eu te amo!” . Mal acabou a frase de impacto e o olhar voltou ao alvo anterior.

Foi então que imediatamente procurei alguém bem mais interessante que o digníssimo no recinto para lhe mostrar a minha capacidade de educação.

Entra em cena o dono da festa que fazia muito tempo me olhava. Começamos a conversar e ele veio como um felino bravo, do outro lado do salão, pronto para atacar em nossa direção enquanto o papo fluía tranquilamente.

O deus grego, escolhido a dedo, que por mim já havia sido notado antes de saber que era o dono da festa e muito antes do outro ter visto a louraça, sorriu, sorri de volta e pelo aplicativo conseguiu pegar meu contato. Toda ação foi feita em segundos antes que ele se aproximasse. Com firmeza puxou-me pela mão e com toda autoridade de quem não possui nenhuma, ruminou:
_” O que significa isso?!”
Foi então que repeti o jargão, que o próprio me ensinou e como sou aluna exemplar, repeti:
_ “Que isso amor? ! Apenas fui educada, você está viajando, ele decididamente não faz meu tipo. Não gosto de homem tipo modelo, rico, educado e bem dotado, dão muito trabalho e o mais importante- eu te amo!”

A noite, que há poucos minutos para mim havia terminado, naquele momento, recomeçava. Decidi que essa festa seria inesquecível, e foi. ” Mega me diverti” enquanto ele passou o resto da noite com a cara amarrada.

Entramos no carro. Deixou – me em casa.
Ao descer daquele carro como se nada tivesse acontecido, decidi que nunca mais o veria e desde aquele dia ele ganhou o prefixo ex. .

É, infelizmente as pessoas só sentem o mal que são capazes de fazer ao outro, quando esse é sentido na pele.

Publicado por Papo Reto com Liliane Ribeiro

Liliane Ribeiro, autora incrível, com uma abordagem inspiradora e engraçada do universo feminino. Com 3 livros publicados no Brasil e Portugal. Seu primeiro livro faz parte do acervo da Biblioteca Nacional de Portugal.

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