O RELÓGIO DO TEMPO 
As marcas do relógio da vida são tão perturbadoras para algumas mulheres enquanto que para outras não dizem nada por parecerem algo muito distante. Para essas mulheres eu digo que até pouco tempo, eu também pensava que fosse demorar muito até que eu viesse vivenciar esse momento. 
Pergunto-me se as mulheres mais jovens lerão isso. A ironia é que elas provavelmente não lerão, e as cabeças que nesse momento estão balançando silenciosamente e torcendo os narizes em sinal de não aprovação e inadequação, infelizmente são de mulheres, que estão no mínimo na meia idade como eu. Infelizmente as maiores inimigas das mulheres são as próprias mulheres.

 

Depois de passar pela infância, puberdade e juventude, eu como a maioria das mulheres deste planeta, entrei na fase das cinco décadas da minha vida, que incluí o somatório de uma adolescência e de uma idade adulta salpicadas por assédio sexual,  “sexismo” no local de trabalho,  guerras de ideias,  diferenças salariais enfim problemas de gê.nero que poucas fêmeas escapam vivenciar.  

 

As questões do feminismo durante esses anos todos foram e continuam sendo criticadas. Embora eu nunca tenha me considerado feminista, não sou adepta do radicalismo, seja ele qual for, sou grata a todas as mulheres e homens que lutaram e continuam a lutar pela igualdade das mulheres, pelos direitos reprodutivos, pela individualidade e contra a liberdade da violência e do assédio. É um trabalho valente e que infelizmente em pleno século XXI, ainda faz-se necessário.

 

Da adolescência até hoje, algo aconteceu comigo e acontece diariamente com milhares de mulheres por todo o mundo e, se não fosse pelos espelhos da minha casa, eu não conseguiria notar o que mudou. A única coisa que eu sei é que todas as mulheres experimentarão ou experimentaram isso algum dia.

 

De repente, você é lembrada abruptamente, quase que deflorada, estuprada pelo tempo, de que o seu exterior não combina mais com a forma como você se sente interiormente, e esse  tempo cruel mina o poder da sua voz, a mesma voz que levou décadas para se expressar, e que agora a sociedade, que se acha perfeita na sua total imperfeição, tenta calar.

 

 Lembro-me da minha mãe conversando com as amigas exatamente sobre esse choque anafilático ao verem seus reflexos no espelho, porque elas ainda se sentiam jovens por dentro mas o espelho refletia  as marcas dos seus quarenta, cinquenta, sessenta anos de idade.

 

Toda essa libertação conquistada pelo feminismo, no entanto, não está totalmente liberada quando o assunto é idade. 
Eu simplesmente fui tele transportada para a próxima fase do sexismo que vem com a meia idade, e que é uma mudança dramática bem ilustrada metaforicamente pela indução mercadológica social da autoestima da mulher acima dos 40 anos de idade que nos direciona ao poço. 
Neste contexto, algumas mulheres perdem a vontade de viver ou passam a viver no anonimato em resultado da mídia, da religião e do preconceito que age contra o objeto transformador do corpo feminino, com o intuito de nos tornar gradativamente invisíveis. 

 

As únicas vozes ouvidas na contemporaneidade, com direitos de viver intensamente pertencem às mulheres mais novas e sexualmente atraentes. Infelizmente esta é uma replicação hipócrita do que acontece na nossa sociedade castrante, intolerante e hostil em geral.

 

Há mais de três décadas da minha vida tentam me moldar, não somente eu como todas as mulheres “empoderadas”  não só pela misoginia (ódio ou aversão às mulheres) bem resolvidas e independentes, como também pela interseção da misoginia e do ageísmo (preconceito de idade). Nunca pensei que um dia eu viesse a vivenciar  meus 50 anos, cheia de vida e realizações.  Mesmo no final dos meus 40 anos, a meia idade parecia estar  um ano-luz longe da minha realidade. Sequer eu lia artigos como este porque eles não tinham a ver comigo e hoje, por ironia do destino, eles são de minha autoria.

 

Quando eu me lembro do que eu pensava sobre as mulheres de meia idade, quando eu era mais jovem, percebo que comprei no passado estereótipos midiáticos e fiz isso sem pensar.
 Eu atribuía às mulheres mais velhas uma falta de relevância e uma incapacidade de contribuir de forma significativa para um mundo e um diálogo que não era mais “delas”, como se a propriedade da cultura pertencesse racionalmente a qualquer grupo etário em particular, menos os delas, e quem diria, esse grupo hoje é o meu. 

 

Esta lição de empoderamento da mulher madura é aprendida de mulher para mulher, com a passagem do tempo, e não pelo uso perspicaz de olhos e ouvidos. Foi assim que aprendi. 
O mundo mudou, mulheres como eu estão escrevendo, estão lendo,estão escolhendo seus parceiros sejam esses mais novos ou mais velhos, estão gozando e em plena realização pessoal. 
A surdez eletiva não vai parar o trem da nossa vida. Somos mulheres maravilhas, nossos corpos são obras-primas, nossas marcas do tempo são experiências que nos dão liberdade de escolher ser quem queremos ser.  Continuamos sabiamente silenciosamente apaixonadas, cheias de planos e com muita vontade de viver mais e mais alcançando nossos objetivos e metas.

 

Para mim, o envelhecimento não tem a ver com as injustiças e muito menos com uma minada sutil do meu lugar dentro desta sociedade e do desrespeito não tão sutil sobre nossas vontades, pensamentos e forma de viver revelado a cada ano que passa. 

 

A minha idade me prepara para uma espécie de desdém parcialmente experimentado por mulheres mais jovens com os mesmos pontos de vista. A sabedoria que vem com a idade tem pouco valor  exceto para aquelas que a possui, porque sabedoria é outra palavra antiga, e velha é o que ninguém quer ser. 

 

Fico feliz em parecer com a realidade, uma mulher caminhando para os 51 anos de idade. E é simplesmente bizarro perceber que minha aparência é algo que muitas mulheres jovens temem para o seu futuro, como eu temia.

 

Se continuarmos a nos apagar na segunda metade de nossas vidas, permaneceremos presas em um ciclo perpétuo de conflagração de jovens com maior relevância social na primeira metade de nossas vidas e o axioma patriarcal de que as mulheres são apenas valiosas quando são jovens.

 

É preciso união. Vamos fazer um esforço consciente para deixar de colocar as mulheres mais velhas de lado. Mulheres com mais de 50 anos são sexy. Sinto-me melhor hoje do que quando eu estava nos meus 30 anos.   
 Somos mais fortes juntas do que separadas – mulheres de todas as raças, de todas as expressões de gênero, de todas as orientações sexuais, de todas as classes socioeconômicas, de todas as religiões, de todas as etnias e sim, de todas as idades também. 
Sou mulher e não aceito outro rótulo senão o de -Mulher Empoderada, feliz, corajosa e desbravadora.

Somos o nosso próprio conceito de beleza. 
Não me importo com os narizes torcidos e as cabeças balançando em desacordo com meus gestos ou ações. 
Não me importam as definições infundadas sobre mim dadas por pessoas que se sentem no direito, sem tê-lo de julgar a minha pessoa, de dizer a mim ou aos outros o que posso ou não fazer. 
Palavras de terceiros não me definem. Cada um seja feliz da sua maneira. Eu sou da minha! Aos 50 anos você entende que quem não chora suas dores e não vive a sua vida, seja quem for, não merece a sua atenção. Meia idade sim em completa realização! – Liliane Ribeiro
Liliane Ribeiro é autora do Livro “Papo Reto com Liliane Ribeiro” da Editora Novo Século á venda nas melhores  livrarias em todo Brasil com exemplares na Biblioteca Nacional de Portugal – Lisboa. E do manual sobre relacionamento  na  Rede Social  “Mulher Desejada” –  formato Ebook online  pela Amazon.

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Papo Reto com Liliane Ribeiro

Conselheira, espírito nômade, mediadora, inovadora, despudorada e bem-humorada é assim que me auto-defino. Escrevo o que sinto e o que penso sem a preocupação de agradar ao leitor. Escrevo para seres humanos que amam e querem ser amados sejam eles homens , mulheres, heterossexuais, homossexuais, trans, ricos ou pobres. A linguagem do amor é universal ela não faz distinção de pessoas, basta estar vivo para morrer de amor. Talvez seja exatamente por isto que as pessoas se identificam com a minha linguagem. O meu objetivo é empoderar pessoas para que elas não caiam nas ciladas que a paixão nos prepara e se caírem, que se levantem o mais rápido possível para seguirem a viagem insólita que é a busca do par perfeito.

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